Meu diálogo com Reggio Emilia e com seu Projeto Educativo

Dias antes de embarcar, procurei ler ainda mais sobre a cidade de Reggio Emília e seu projeto, que me encanta desde 2008.

Li muito sobre o universo que rodeia essa cidadezinha ao norte da Itália e sobre suas peculiaridades. Dentre tantas leituras, encontrei um texto de Debora Vaz onde ela nos contava suas impressões durante sua primeira visita a cidade e as escolas. Debora nos relatava que as escolas de Reggio tinham cheiros e isso me intrigou. Claro que no momento que li, me remeti ao fato das escolas terem a cozinha como um grande laboratório de paladar, olfato, tato, mas daí a escola ter cheiros, na minha cabeça, havia uma lacuna grande. Lacuna essa que foi sendo preenchida à medida que os encontros com a cidade e com as escolas foram acontecendo.

Conheci a cidade de Reggio Emilia de uma maneira muito particular. Saí do Brasil com a expectativa de me tornar íntima dessa cidade de alguma forma e consegui 

06h20 lá estava eu na porta do hotel Astoria pronta para desvelar os segredos de uma Reggio que ainda acordava. Me sentia acolhida pelo frio, dessa cidade pertinho dos Alpes, ao entrar no Jardim Público para iniciar as minhas corridinhas. Era assim que me sentia, acolhida. Acolhida por uma cidade que foi avassalada por uma guerra. Acolhida por uma cidade que soube dar a volta por cima e retomar a vida. Acolhida por uma cidade que mostrou a força de suas mulheres ao decidirem que havia de se construir uma escola e não um cinema, como seus homens gostariam. Acolhida por uma cidade que, por ironia, tem sua grande referência em um homem, Loris Malaguzzi, que teve a sensibilidade exata para levar esse grupo de mulheres adiante. Acolhida por uma cidade que fez com que suas crianças estivessem no centro de tudo. Acolhida por uma cidade que, através das crianças e pelas crianças tornou-se uma referência mundial em educação. Acolhida, essa é a sensação que melhor define meus dias em Reggio Emília.

Correr pela Reggio ainda adormecida, silenciosa, ausente de pessoas, foi uma das melhores sensações de minha vida. Entrava em pequenos becos, passava por uma praça, me deparava com construções muito antigas, saía em um jardim, enfim, um trajeto digno de boas lembranças!! E a cada dia, tendo como fundo musical, os passarinhos, eu pensava na história daquela cidade, imaginava quantas vezes Loris havia passado por aquela praça, o quanto essa cidade foi palco de eventos positivos e negativos e o quanto de espaço as crianças reggianas ou as crianças que vieram de outros locais do mundo, mas que também foram acolhidas por Reggio, possuem. O cheiro que exalava das casas nesse horário era de café e de brioches. Sim, a cidade também tem um aroma próprio.

Conhecer as escolas de Reggio e,em especial Diana e Michelangelo, é algo que também me marcou profundamente. As escolas de Reggio (assim como Aletheia, escola localizada em Buenos Aires, que amo!!) tem vida! Sim meninas, tudo aquilo que lemos e relemos, acontece entre aquelas paredes transparentes! Um arrepio tomou conta de mim ao observar as crianças em comunhão (essa é a palavra que define, para mim, o que vi, comunhão no sentido de união, em busca de uma resolução comum) nos momentos de trabalho em grupo. O valor da relação, do encontro, da autonomia e também da responsabilidade conjunta, eram aspectos que se faziam presentes. 

O cheiro que tanto me intrigou, se fez muito presente em uma das escolas. Aquele aroma de macarronada da nona!! Hum !! Inconfundível. Eis aí, um pouquinho do cheiro que Debora nos relatou outrora.

Em outra escola, Andersen, onde as crianças prepararam o café e toda ambientação dos espaços para nos receber , Simonetta Cittadini, mantenedora de L̓ atelier School, localizada em Miami me disse algo muito especial, você deve levar com você a sensação e reinventar. Isso faz todo sentido e diferencial. As sensações me acompanharam durante toda minha estadia.

Enfim, ao chegar a Praça dos Leões e me debulhar em lágrimas abraçando a Telma, tive a certeza que essa foi somente a minha primeira viagem para Reggio e outras tantas ainda virão. Tive a certeza que o meu futuro e o futuro da Diálogos continuará, essencialmente, ligado a esse projeto educativo. Em 2010, escutei a mesma Simonetta dizer que Reggio Emilia estava em ressonância com seus sonhos. Faço dela as minhas palavras, Reggio Emilia está em ressonância com os meu também.

*Fabiane Vitiello de Oliveira - Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia, estudiosa da Abordagem Reggiana, ministra cursos e palestras a professores da rede pública e particular. Sócia – fundadora da Diálogos – Viagens Pedagógicas. . Presta assessoria a escolas de educação infantil.