Educar o olhar para a leitura e para a literatura infantil e juvenil

avatar Román Belmonte Andújar - 01 de outubro de 2019

Literatura infantil

Foi a partir do comentário de Salvia [1], a apanhadora de rimas, sobre a importância que a educação do olhar tinha sobre a literatura para crianças e jovens, que comecei a me perguntar e indagar sobre o processo que havia progressivamente formado o meu próprio olhar sobre a literatura em geral, e sobre a literatura infantil em particular. Depois de vários meses anotando lembranças e ideias sobre esta questão, resolvi resumir de maneira mais ou menos organizada aquelas que interferem, com maior ou menor grau, no desenvolvimento dessas capacidades, como fazem isso, qual é o processo tradicional, como a recuperamos e qual o seu futuro.

Educar para ler, ler para educar

A primeira coisa é estar atento à relação entre a literatura infantil e juvenil (LIJ) e a educação… E quando falo “educação” não me refiro a esse conceito atrás do qual se resguardam os políticos para justificar sua doutrinação e fazer o que quiserem com os mas algo mais profundo. A educação tem muito a ver com tudo o que se refere aos olhares, isto é, à opinião que se forma em cada um de nós sobre o que nos rodeia desde a infância. Nesse sentido, a educação é considerada como entidade global que não tem a ver apenas com os conteúdos e os preceitos que a escola tenta inculcar, mas com uma infinidade de outras instituições – como a família, os amigos, o âmbito laboral e os meios de comunicação –, que marcam a idiossincrasia particular do indivíduo. A educação impregna nossa vida desde o berço, e, desde então, absorvemos como esponjas o que nos queremos, consciente ou inconscientemente (não se enganem, as crianças são muito mais libertinas do que nós, ainda que tentemos lhes impor limites!), para formar um olhar próprio sobre o qual se baseiam nossos juízos (que podem ser de uma natureza muito variada, desde pessoais até culturais, políticos ou médicos). É por isso que a leitura deve fazer parte desse processo educativo integral, não apenas como necessidade educativa primeira, mas como vínculo de aprendizagem que utilizaremos para o resto de nossas vidas.

Família e exemplo

São três, a meu ver, os agentes que intervêm de maneira ativa na educação do olhar sobre a LIJ. Em primeiro lugar, temos a família, o agente mais importante para desenvolver não somente uma opinião crítica a respeito da LIJ, mas também ao se promover o gosto pela leitura junto às crianças/jovens, o reconhecimento do livro como objeto e artefato, como veículo e entidade. Pais, mães, irmãos, tios ou avôs são os primeiros responsáveis por semear o gosto pelo ato de ler, dando exemplo, em primeiro lugar e, na sequência, tutorizando e educando. De nada vale colocar esse disco riscado que toca “Neném lê, lê, lê…” se na casa ninguém lê nada, e tampouco gosto dessa outra ladainha “Leia, o que for, mais leia”. E assim acontece que alguns somente leem jornais de esportes ou revistas de navegação. Evidentemente que a origem, o nível socioeconômico, e principalmente o cultural, de cada família estimulam ou não essa inclinação para o mundo do livro (que é a de nunca inculcar dogmas, sobretudo).

Sim, queridas famílias: a leitura catapulta a nossa imaginação, faz compartilharmos opiniões e objeções, amplia o mundo e nos proporciona mais formação, mais ferramentas para realizar múltiplas atividades ou solucionar problemas – isto é, para subsistir. Não se enganem: não creio que ler nos faça melhores pessoas (muitos me decapitariam se dissesse que muitos leitores são ruins e arrevesados), nem mais especiais; talvez, mais livres (não sei por que me vêm à memória certos livros sagrados ou o mesmíssimo Mein Kampf… nesse sentido, até a liberdade está difícil…).

 Em segundo lugar, temos a escola, essa instituição a que pertenço. Creio que nós, os docentes, além de termos um grande peso neste equilíbrio (em minha opinião, somos o fiel da balança), nos sentimos entre confusos e encurralados. A confusão nos chega ao pensar que é sobre nós que recai a maior parte da responsabilidade de formar leitores, algo que não deveria ser assim, uma vez que o âmbito escolar deve formar, orientar e oferecer possibilidades aos alunos para o desenvolvimento da leitura entendida, já que a semente plantada pelo âmbito familiar começa a germinar.

Se a tudo que foi dito acrescentarmos a enorme quantidade de objetivos estabelecidos desde o marco institucional, esse que deveria deixar de lado o paternalismo e/ou o bom-mocismo para se concentrar em outras lutas mais importantes como a formação dos professores em LIJ, a inserção dos docentes no que chamamos ler, esse verbo que não suporta o imperativo, é cada vez mais difícil.

Por outro lado, e considerando a orientação pedagógica da literatura infantil, devemos ser críticos com nossas ilusões e deixarmos de olhar o livro por sua carga de conteúdos, valores ou emoções que podemos ensinar com ele. Essa visão maniqueísta da vida (uma reminiscência do construtivismo?) não faz bem algum aos nossos alunos, já que em parte cria certa tendência ao ódio visceral, que muito tem da letra impressa. Em contrapartida, e, no que tange ao lado acadêmico ou instrumental dos livros – como manuais ou livros didáticos, livros que devemos englobar numa categoria de não ficção –, não resta dúvida: seu lugar é na escola e são feitos para ensinar e aprender, e, se levam à leitura prazerosa, tanto melhor.

O último ponto é lembrar que as crianças e adolescentes investem uma média de 5-6 horas por dia nos colégios e escolas, de forma que não se pode desdenhar o grande conhecimento que os docentes têm dos gostos e inclinações de seus alunos na hora de ler, algo que deve ser desconsiderado por muitos especialistas na LIJ, os quais opinam e indicam obras sem jamais ter entrado em contato com eles.

Bibliotecas ou diversidade de leituras

O terceiro pilar sobre o qual assenta a educação da LIJ e da leitura são as bibliotecas.[2]

Construir bibliotecas é importante, mas mais importante é abri-las e dar-lhes vida. De nada nos serve uma biblioteca deserta que não interaja com seus usuários por meio de seu acervo e de seus funcionários. Estou farto de ver bibliotecas vazias – de público e novidades –, e de bibliotecários que somente se dedicam a emprestar e guardar livros. Esta realidade pode ter duas origens: por um lado, a redução dos gastos governamentais (está claro que a Cultura, entendida como bem comum, se encontra cada vez mais esvaziada) e, por outro (sinto muito que justos paguem por pecadores), destacar que existem muitos bibliotecários “institucionalizados”. Pessoas que chegam ao trabalho, batem o ponto e desempenham seu papel dentro do que se espera, e pronto.

Os bibliotecários devem solidificar o gosto pelos bons livros, fazer descobrir novas formas de olhar a literatura, reviver gêneros esquecidos, mostrar detalhes escondidos, relacionar títulos aparentemente díspares, e oferecer novas possibilidades e alternativas, uma tarefa que somente se consegue sendo um grande leitor e semeando a paixão pelos livros com certa magia (não são necessários fogos de artifício, mas ter capacidade comunicativa e de organização). Às vezes, basta falar de livros, o que não é pouco…

Outros mediadores de leitura

Apesar de famílias, docentes e bibliotecários estabelecerem o cimento para a educação da LIJ (isto se todos forem leitores, claro!), não cabe menosprezar o papel que especialistas, livreiros, editores, autores, ilustradores e outros, desempenham nesse olhar para a LIJ, uma vez que devem ter muito claro para quem trabalham.

É muito diferente trabalhar para garantir seu sustento e trabalhar por pura devoção. Talvez o primeiro seja tão lícito quanto o segundo, mas isso de ganhar o sustento fazendo aquilo de que se gosta preenche mais (de liberdade, amor próprio, decepção ou frustração… nem tudo é tão maravilhoso), principalmente quando se estabelece um contrato, ainda que non scripto, com os leitores que buscam uma experiência estética à altura.

O editor deverá zelar pelo formato de seus livros, em sintonia com o produto oferecido, selecionar narrativas e poemas com valor literário, e se preocupar em direcioná-lo adequadamente ao público; o escritor tem um dos maiores compromissos, o de fazer boa literatura sem ceder aos interesses criados; o ilustrador deve interpretar e complementar a linguagem verbal com a artística, elevar sua própria linguagem, sem perder de vista a qualidade; o livreiro terá que saber se mover entre a diversidade e os bons livros, assim como orientar adequadamente na compra; e o especialista deverá deixar seus preconceitos e inclinações para poder oferecer uma adequada seleção de livros que ajudem o crescimento, como leitor, de quem seguir suas indicações.

Tudo que rodeia a leitura

O ambiente, os estímulos que nos rodeiam, desde os mais prováveis aos mais irracionais, também têm a ver com a LIJ e a leitura… Os indivíduos não vivem isolados, mas estão sujeitos a uma série de fatores: namorados, amigos, conhecidos, conversas que não nos interessam, os meios de comunicação (principalmente a televisão, páginas de internet, redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas), o cinema, a cultura visual, da qual podemos citar os videogames ou a pintura, a música, o teatro, a religião, a localização geográfica, o sistema político, um trauma, algo chocante, a morte de um familiar, os complexos distantes ou pessoais, os estereótipos e, até mesmo, os preconceitos, os ícones e os símbolos. Tudo se encontra relacionado e pode configurar o ecossistema de um leitor competente e capaz.

 Podemos citar o condicionamento e a repercussão que os desenhos animados tiveram sobre a percepção dos livros ilustrados do século XX, exemplificada pela onipresente fábrica Disney®, que marcou um antes e um depois no olhar que as crianças desenvolveram diante de formas e linhas. Devemos assinalar também os movimentos e correntes artísticas como fonte de inspiração e execução nas tendências de ilustração (cada época tem as suas… abstração, cubismo, figurativa, dadaísmo, expressionismo, impressionismo, cultura naïf etc.), que modelam e aproximam o olhar coletivo da LIJ, algo que também ocorre com os diferentes gêneros literários (há épocas mais propensas à novela de aventura, ao conto de fadas ou à poesia romântica). Uma criança que vive no Oriente Médio não tem o mesmo olhar para a LIJ que outras que vivem no Vietnã ou na Inglaterra (é só visitar qualquer feira de livro infantil internacional, olhar as diferentes ilustrações e dizer o que fica mais próximo), tampouco viver numa sociedade ocidental capitalista ou nas periferias de Nairóbi (quem são aqueles que entenderão melhor O soldadinho de chumbo,[3] de Jorg Müller? Com certeza a mensagem captada será diametralmente oposta).

A inclinação da leitura

Protagonistas e coadjuvantes compõem um elenco insuperável do qual, como tudo que tem a ver com o humano e o mundano, temos que identificar a inclinação, aquilo que faz a balança pender para um lado ou para o outro… Não dá na mesma ser criado em uma família com perfil intelectual ou culturalmente ativa ou em outra na qual os negócios são a prioridade; não dá na mesma ter um professor que se incline por certos gostos contemporâneos ou outro que defenda a grandeza dos clássicos; comprar os livros de nossos filhos na papelaria do bairro ou numa livraria especializada não interfere nisso; nem tampouco dá na mesma usar uma biblioteca doméstica ou ocupar duas tardes na semana passeando pelas estantes da biblioteca pública.

O caminho do olhar leitor

Com relação ao itinerário que nosso olhar LIJ segue ao longo do tempo, pouco posso dizer no âmbito particular (não sou especialista em didática de literatura infantil e juvenil, e certamente existirão outros muito mais especializados no tema), mas me atrevo a dizer que não creio que ela deva ser linear (quem gosta de túneis?), mas que deve ter uma forma ramificada, tridimensional (imagino uma semiesfera), na qual possamos nos mover para frente ou para traz, mas também dar passos lateralmente, isto é, em direções e sentidos variados.

Em linhas gerais, e concretizando mais, o processo educativo tradicional voltado para a LIJ poderia ser o seguinte:

  1. O primeiro vínculo deve partir do puramente verbal, da oralidade. Jogos de palavras, cantigas de ninar, cantilenas e canções cumulativas para começar a instrumentalizar a linguagem e fomentar a criação de um ideário particular.
  2. A isso se seguiria a aquisição de habilidades em leitura-escrita (ler para escrever, escrever para ler), exercício que se afirma com a narração oral de contos e lendas – tradicionais, clássicas e atuais –, técnicas de fomento à leitura, leitura em voz alta e uso de outras linguagens, como a musical ou a artística (aqui desempenha um papel importante o álbum ilustrado), que sirvam de apoio à contextualização de um amplo marco referencial, tanto próprio (real ou imaginário), como do outro.
  3. O leitor continua se formando e adquire autonomia; aqui é o momento em que temos que propor um amplo leque de possibilidades. O leitor precisa se arriscar, experimentar, explorar, se decidir, escolher, triunfar e fracassar.
  4. É assim que escolherá e formará seu ideário, tendências e biblioteca mental particular, definindo-se, por fim, como leitor.

Como resgatar os leitores perdidos?

Apesar de tudo o que foi dito ser muito bonito e soar muito bem, ninguém se questiona sobre a elevada taxa de não leitores que há entre os jovens, para os quais poucos especialistas, estudiosos ou mediadores desenvolveram estratégias para levá-los de volta aos livros. Os “leitores perdidos” (uma denominação que criei faz tempo), aquelas crianças ou adolescentes para os quais a leitura não vale nada depois de ter adquirido as habilidades necessárias para realizá-la, são produto de múltiplas causas, que vão desde o contexto familiar ao chamado “fracasso escolar”,[4] passando pela falta de estímulos e as mudanças hormonais. Seu olhar literário é, inclusive, mais importante que o dos principiantes, e deveríamos prestar atenção a projetos com os quais, como anzóis, pudéssemos recuperá-los. Esses ganchos passam por cada um de nós (a maturidade faz milagres) ou pela procura de outras linguagens, que vão desde o puramente paraliterário (condensa mensagens igualmente válidas, mas mais facilmente alcançáveis) à linguagem gráfica (já está sendo feito desde o livro ilustrado e as telas portáteis), o digital (não falo do e-book…) ou a mesma interface de usuário (como me comunico bem com meu carro!). Sem dúvida, essa é uma realidade que, ainda que deixe a muitos nervosos, começa a ganhar corpo em muitos projetos educativos (vejam os países nórdicos), e suponho que, com o tempo, abrira espaço nesse caminho que o olhar da LIJ deve percorrer.

Epílogo

Como conclusão, e esperando que estejam de acordo, quero assinalar que ninguém tem uma receita infalível para conseguir um olhar sobre a LIJ “ótimo”, “desejável” ou “recomendável”. Isso está claro. Mas me aventuraria a dizer que a criança ou jovem que se vê submerso num ambiente propício e literariamente diverso tem mais possibilidades que outro de desenvolver esse olhar literário. Com isso, não quero dizer que não existam exceções, como a de um amigo curioso, uma bibliotecária comprometida pela causa, alguns professores brilhantes, ou um pai e/ou mãe devoradores de livros (há vezes em que acredito no equilíbrio pontuado [5] de Gould e Eldredge aplicado a estes leitores sem direção), mas tenho que confessar que tive a grande sorte de contar com todos eles, e de poder ver hoje os livros com os olhos deles, mas com meu olhar.

 

[1] Cf. o blog Poesia infantil i juvenil. Disponível em: <http://bibliopoemes.blogspot.com/2018/07/horizonte-de-poesia.html/>. (Acesso: 31 jul. 2018).

[2] NB: A isto, seguramente, se deve o fato de que muitos projetos de leitura diferenciem a esfera cultural da educativa, essa duplicação de recursos e empenhos que não se compreende desde um ponto de vista monetário – é o dobro do gasto –, mas sim, talvez, a partir de um prisma funcional.

[3] MÜLLER, Jorg. El soldadito de plomo. Barcelona: Lógues Ediciones, 2016.

[4] N.B.: É curioso, mas os alunos que batem de frente com o sistema educativo costumam deixar também de lado a leitura prazerosa.

[5] Equilíbrio pontuado é uma teoria evolutiva proposta pelos paleontólogos norte-americanos Niles Eldredge e Stephen Jay Gould em 1972, que propõe que a maior parte das populações de organismos de reprodução sexuada experimentam pouca mudança ao longo do tempo geológico e, quando mudanças evolutivas no fenótipo ocorrem, elas se dão de forma rara e localizada (N.T). Cf. EQUILÍBRIO PONTUADO. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Wikimedia, 2018. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Equilíbrio_pontuado>. Acesso em: 31 jul. 2018.

 

Matéria por realizada pela Revista Emilia

www.revistaemilia.com.br

Román Belmonte Andújar – é autor do blog “Donde viven los monturos:literatura infantil y juvenil”, um espaço dedicado à mediação de leitura e a resenha de livros para crianças e jovens.

 

Conheça nosso clube de livros exclusivo para professores:

Clube de assinatura de livros pedagógicos

De professor para professor