Escutas ordinárias

avatar Eloisa Ponzio - 01 de Outubro de 2020

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“Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.” 

Cora Coralina 

 

Não sei se o mesmo acontece com você. A quarentena em casa tem me proporcionado novas escutas, literais e metafóricas. No cotidiano, ordinário, voltei a ouvir o apito da panela de pressão com mais frequência do que o apito do micro-ondas. O retorno ao caderno de receitas e o apelo à memória, trouxeram juntos o uso do tal utensílio. Parece que as receitas mais antigas eram mesmo mais demoradas e, por essa razão, a panela de pressão era uma aliada das cozinheiras. Soma-se ao fato a queda de temperatura e, consequentemente, o convite aos caldos vigorosos, feitos a partir do tranquilo cozimento de carnes e legumes. O “brodo” como é chamado na Itália, remete-me à vida em Reggio Emilia. Foi lá que aprendi a espetar um cravo na cebola que faz parte dos ingredientes do caldo. Sinceramente não sei explicar qual a razão do cravo, mas sigo a receita à risca. Enquanto a panela toca sua “música”, a casa vai se perfumando e a imaginação engrandece até momento de saborear o prato que está sendo preparado. A lembrança do tal apito que participou tanto da minha infância, agora visita a minha casa.  

O confinamento trouxe a obrigatoriedade de nos guardarmos e modificou os verbos e as ações. Nos guardamos permanecendo em casa, nos cuidando, mas também guardando a vida, revisitando as memórias fotográficas, os registros escritos, as gavetas dos guardados, os livros e passeando pela nossa história. Os gestos desse tempo não são os mesmos de antes e, os atuais, amadurecem diariamente. Se antes o tempo era bastante destinado aos verbos encontrar, passear, “cinemar”, hoje tem lugar o lavar, varrer, cozinhar, esperar e o esperançar. A espera que vai se acomodando no sofá, com os livros e canções, com os filmes e jornais e com a esperança de que tudo vai passar. Cotidianamente a renovação: da esperança, da força, da alegria, da vida. Transformar a prosa em poesia é uma forma de fitar o ordinário no crescimento das plantas, nas conversas entre os passarinhos e periquitos, no céu se recolorindo e na casa mudando de luz, olhando-os com olhos de extraordinário.  

Recuperar o que já está dentro e trazê-lo, tirá-lo para fitá-lo, é um outro jeito de guardar.

 

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