Para ler, ver e contar

avatar Ana Maria Gonçalves - 02 de Junho de 2020

Para ler

Sou suspeita para falar da importância da literatura porque, para mim, ela não se apresenta apenas como um simples hobby ou passatempo: é meio de vida. E também é vida, pois não me lembro de estar neste mundo sem que livros tivessem grande importância no meu dia a dia. Tenho a sorte de ter uma mãe leitora, e desde muito pequena lembro-me de vê-la sempre com um livro nas mãos. Varria a casa enquanto lia, cozinhava enquanto lia, descansava enquanto lia, lia em quase todos os momentos de folga e lia para nós, os filhos, que nos distraíamos com o som de sua voz e mesmo com as histórias que nem sempre entendíamos. Lembro-me destes momentos com carinho muito especial, porque era como se, através dos livros, ela nos deixasse fazer parte daquele universo que tanto a fascinava. Talvez por isso, minha carreira de leitora tenha começado bastante cedo.

Nasci em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, Ibiá, onde havia uma pequena biblioteca com poucas opções de livros para crianças. Quando li todos eles, minha mãe permitiu que eu tivesse acesso à sua pequena biblioteca, depois de rearranjar os livros nas prateleiras e dizer que eu poderia ler todos os que alcançasse. Um mundo fascinante se abria, mas havia outro ainda mais chamativo nas prateleiras mais altas que, eventualmente, estariam fora do meu alcance. Foi dali que, às escondidas e depois que todos da casa iam dormir, peguei dois livros que me marcaram para sempre.

O primeiro deles foi “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, que li quando tinha mais ou menos sete ou oito anos de idade. Virava as páginas com espanto e interesse, porque pela primeira vez fiquei sabendo da existência de crianças que viviam pelas ruas sem pai nem mãe, fazendo o que bem quisessem. Entendi ali, trancada no meu quarto para que ninguém me pegasse lendo “livro proibido”, o que tanto fascinava a minha mãe: a possibilidade de viver aventuras e desventuras e de habitar mundos completamente diferentes do que eu conhecia.

O segundo foi “O exorcista”, de William Peter Blatty, livro que me levou a contar a minha mãe que estava lendo às escondidas, por causa do medo enorme que senti, apesar de não conseguir abandoná-lo ao meio. “Eu disse que você podia ler apenas o que alcançasse, e você desobedeceu. Então, a partir de agora, a estante toda está liberada mas você terá que assumir inteira responsabilidade pelo que lê”, foi a resposta que recebi quando pedi para ir dormir no quarto dela. Tal frase foi suficiente para me fazer entender que estava diante de algo não apenas fascinante, mas também bastante sério: A Literatura.

Já perceberam como, nos governos autoritários, escritoras e escritores estão entre as primeiras pessoas a serem perseguidas, demonizadas, atacadas, diminuídas na sua importância? Isso porque lidamos, além de outras coisas, com o despertar da imaginação, esta capacidade humana de pensar outros mundos e outras realidades possíveis. Mesmo que os corpos sejam escravizados, que o acesso ao conhecimento seja limitado, que o mundo exterior se torne feio e perigoso, a imaginação será sempre um refúgio. Mas não do tipo de refúgio que nos torna seres acomodados. Muito pelo contrário: ao entender que imaginar é infinito, desejar também será. E o melhor de tudo é que outro grande efeito da literatura, além de estimular a imaginação, é a empatia. Ao conhecer novos mundos e novas culturas, ao habitar a pele de pessoas completamente diferentes de nós, somos modificados pela experiência e levados a ver os outros quase como vemos a nós mesmos; e nos entendemos como parte de um todo que queremos modificar, melhorar, incentivar. Em dias feios e perigosos como os que estamos vivendo, este é o ponto de partida. E partimos juntos.

Geralmente acredito que leitura não deve ser dirigida. Deve-se ler o que se tem vontade, o que capta os sentidos, o que nos prende por horas e horas sem que nem nos demos conta. É à partir daí que o bom leitor vai construindo seu gosto, seu repertório, puxando o fio deste hábito que, depois de instalado, torna-se tão essencial e natural quanto respirar. Que a lista a seguir seja então um fio condutor, uma sugestão, uma ideia que pegue pela mão e diga: que tal ir também por aqui?

Livros sugeridos, sem ordem de preferência e sem filtro:

1 – Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus

2 – Na minha pele – Lázaro Ramos

3 – Entre o mundo e eu – Ta-Nehisi Coates

4 – Sejamos todos feministas – Chimamanda Ngozi Adichie

5 – O ódio que você semeia – Angie Thomas

6 – Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa

7 – Um Exú em Nova York – Cidinha da Silva

8 – Assassinato no Expresso do Oriente – Agatha Christie

9 – A revolução dos bichos – George Orwell

10 – Cidade de Deus – Paulo Lins

Mais um:

11 – Poesia completa – Paulo Leminski

 

Um abraço,

Ana Maria Gonçalves

 


Esta “Carta” integra o projeto “Literatura e Direitos Humanos: para ler, ver e contar”, uma ação do Ibeac  e da Rede LiteraSampa, com apoio do Consulado Geral da República Federal da Alemanha em São Paulo e do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. São objetivos, disseminar informações de qualidade acerca dos Direitos Humanos e ampliar o repertório de leitores, a partir da seleção, leitura e debate de 50 obras literárias por 20 adolescentes e jovens mediadores de leitura da LiteraSampa.  A lista de livros indicada por um grupo de escritores(as) e mediadores(as) de leitura, – Luiz Silva (Cuti), Rogério Pereira, Ana Maria Gonçalves, Letícia Lisboa, Camila Dias e Bel Santos Mayer, conta com “cartas aos jovens leitores” justificando suas escolhas. A Revista Emília é parceira do projeto e será um dos espaços de divulgação do projeto e de materiais produzidos pelos leitores.

Originalmente, esse texto faz parte do blog da Editora Emilia.

 

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