Ter olhos para a escuta: A construção de laços afetivos

avatar Eduardo Ferreira - 10 de setembro de 2019

pedagogia da escuta

É inconteste a importância da escuta nas espécies, seja na relação entre elas, ou na relação com outras espécies. O exercício de uma boa escuta, no reino animal por exemplo, pode ser a diferença entre sobreviver ou não. E vai além. Para os seres humanos o “escutar” relaciona-se diretamente com o “aprender”, na medida em que a informação sonora, juntamente à visual, se incorpora no repertório da criança, dando a ela ampliação de suas possibilidades. 

A pedagogia da escuta nasce com “Loris Malaguzzi” sendo um dos pilares de sua abordagem e é ferramenta disponível aos educadores porque requer, num primeiro momento, apenas afeto e entrega. Aproximar-se à mesma altura da criança para ouvi-la com atenção para lhe entregar importância. 

“...falar baixo tem a ver com a escuta...

...ela chama para perto...” Severino Antônio 

Soa bastante óbvio dar atenção à importância da escuta, mas acredite, isso ainda precisa ser incentivado. Ainda que seja um sustentáculo do enriquecimento cultural e pessoal, a escuta requer cuidado e preparo para ser potente e responder à altura da demanda. Pais e mães, em geral, trazem consigo um aguçamento da escuta a partir do instinto de sobrevivência. Um gemido do filho durante a madrugada, uma tosse ou até um “virar na cama” de forma mais abrupta é capaz de produzir um diagnóstico e uma ação imediatos, e o conhecimento e o preparo podem ser de grande valia.  Para os professores, um traço em um desenho, um caminhar solitário, um grito ou até mesmo o próprio silêncio podem (e devem) ser muito eloquentes, desde que sua escuta seja tão atenta quanto preparada, competente. A escuta produz um laço afetivo e possibilita reconhecer e estimular as habilidades que a criança traz originalmente consigo, crescer e se permitir surpreender com ela. 

Isso requer estudo, exercício, entrega e muita, muita atenção. Observar a criança é pouco. Há de se criar um elo de proximidade com ela e com o ambiente que a cerca. Reconhecê-la como indivíduo protagonista, conhecer a sua particularidade, sua relação com cada material ofertado, e com o espaço habitado e, não bastasse, isso há de ser alcançado de forma muito pessoal, porque cada criança se lança sobre o mundo ao seu redor de maneira única. Ocorre que esse não é um exercício destinado aos professores apenas. O alcance de uma escuta refinada e competente exige que se estabeleça uma corrente de escutas. Também os professores devem ser escutados em suas demandas, em seus anseios, em suas dificuldades. Eles devem ser acolhidos com a mesma atenção que se deseja destinar às crianças. O que precisam? O que desejam? O que trazem consigo de bagagem? O que lhes falta? Dar-lhes conhecimento, importância e colo também é desejável, porque em sua grande parte também não tiveram, quando crianças, a escuta que lhes exigimos dar aos nossos filhos. Coordenadores devem ouvi-los, e não apenas serem ouvidos. Diretores devem ouvir a todos inclusive aos pais. Merendeiras, porteiros e inspetores. Todos.

Quer ter olhos para a educação? Tenha olhos para a escuta...

 

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